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Quando se fala em Real Digital, muita gente deve se perguntar: mas o dinheiro, hoje, já não é digital? De certa forma, sim, há muitos anos. Se todo mundo decidisse sacar dinheiro na sua forma física, seria algo bem difícil de se concretizar, já que os bancos não têm “em caixa” todo o dinheiro depositado pelos seus clientes. Bugou? Calma! É mais simples do que parece.

Uma das formas de um banco tradicional ganhar dinheiro é exatamente dando crédito e investindo essa grana. Sempre que você deposita dinheiro no banco, a responsabilidade sobre esse valor passa a ser da instituição financeira. O que você talvez não saiba é que o banco pega uma parte da grana – por exemplo, 20% do valor – e guarda numa conta que ele tem no Banco Central. Os 80% restantes são usados para emprestar a outro cliente na forma de crédito.

Esse sistema, bastante antigo, é chamado de “reserva fracionária” e tornou-se mais frequente a partir do século XX. É uma política bancária que permite aos bancos privados que eles “criem” dinheiro por meio da geração de recebíveis (empréstimos). A taxa de reserva fracionária é definida pelo Bacen e, internacionalmente, o Acordo de Basileia obriga os agentes financeiros a manter uma reserva de 10,5% dos depósitos recebidos.

Real Digital

Então, se o banco pode emprestar um dinheiro que ele não tem naquele momento, a grana que virou crédito não existe fisicamente. Portanto, não existiriam cédulas suficientes num único banco se todos os seus clientes resolvessem sacar dinheiro ao mesmo tempo. Neste caso, o banco em questão poderia pedir empréstimo a outros bancos para garantir que a reserva seja respeitada e ter o dinheiro para saque.

Por esse e outros fatores, boa parte do dinheiro que circula pelo mundo é virtual e isso acontece bem antes da internet. Mas o que muda com a criação do Real Digital?

De acordo com a agenda de modernização do Banco Central do Brasil (Bacen), a emissão de uma CBDC (Central Bank Digital Currency ou Moeda Digital de Banco Central) tem o intuito de adaptar o Real às novas tecnologias, com “ênfase na possibilidade de desenvolvimento de modelos inovadores a partir de evoluções tecnológicas, como contratos inteligentes (smart contracts), internet das coisas (IoT) e dinheiro programável”.

Em maio deste ano, o Bacen divulgou as diretrizes gerais para a criação da moeda digital brasileira, trazendo alguns esclarecimentos importantes e abrindo o debate com especialistas e a sociedade. A ideia do BC é que, ao invés de imprimir a cédula, seja gerado um código que equivale a essa quantidade de dinheiro. O valor seria transferido para um banco comercial, responsável por guardá-lo e distribuí-lo.

Se antes você tinha R$ 100 na conta, agora você terá e-R$ 100 e poderá usar esse valor para realizar pagamentos e fazer compras. Ou seja, para o consumidor, as duas moedas terão a mesma finalidade. As transferências pelo Pix continuam instantâneas e, caso queira utilizar dinheiro de papel, será possível sacar num caixa eletrônico normalmente.

Entre outras vantagens apontadas pelo Bacen está a redução do uso do dinheiro em espécie, que gera um custo elevado para o país: mais de 1% do PIB. A expectativa é de que, a partir do Real Digital, esse custo caia pela metade, segundo Fabio Araujo, coordenador dos trabalhos sobre a moeda digital.

O representante do Bacen também informou que a impossibilidade de transformar o Real Digital em crédito é um dos motivos pelos quais as duas moedas (analógica e digital) devem existir em conjunto. A moeda digital ficaria custodiada num cofre virtual, não podendo virar crédito para outras pessoas. Seria algo similar ao que já acontece com as fintechs: se você deposita dinheiro no Zro Bank, que é um banco digital, ele não pode usar essa grana para dar crédito a outros clientes.

Um dos principais questionamentos feitos por economistas brasileiros, sobre a implementação da CBDC, diz respeito à privacidade e à liberdade dos usuários. Nas diretrizes do Real Digital, porém, o Bacen informa que as mesmas regras de sigilo bancário e Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) serão seguidas. Sendo assim, poderá haver quebra de sigilo caso haja alguma investigação por crimes como lavagem de dinheiro.

Para discutir publicamente a implementação do Real Digital, o Banco Central promove uma série de webinars, composta de sete encontros. Em cada um deles, a ideia é discutir o andamento dos trabalhos com representantes dos provedores de serviços financeiros (fintechs, bancos), provedores de tecnologia (provedores de infraestrutura tecnológica para mercados financeiros e bigtechs) e com a sociedade em geral.

Para conferir a programação, é só clicar aqui.

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